Metralhadora de “por quê?”

Conto Carioca fevereiro, 2017

Eu tinha medo de essa fase chegar, mas sei que seria inevitável. Sempre ouvi amigos e parentes dizerem que seria um momento de nos quebrar as pernas, porém não sabia que, em certas ocasiões, seriam as duas de uma só vez.

Estávamos eu e Abelardinho, meu filho, na fila de uma loja, para pagar as roupas que compramos para ele, quando, de repente, ele me soltou a seguinte pergunta:

– Papai, por que a calcinha que está na mão desta moça é tão pequena, diferente das que a mamãe usa?

A tal moça estava à nossa frente, de costas para nós, e assim permaneceu. Eu fiquei com a cara mais vermelha que a própria calcinha que a mulher segurava, e que, realmente, tinha muito pouco pano. Aliás, acho que era feita de fitas. Uma senhora que estava atrás de mim e escutou o questionamento do garoto, balbuciou para uma outra que a acompanhava:

– Esse menino deve ter uns seis anos, mas é muito esperto! Realmente, aquilo não é coisa que se vista. Uma falta de vergonha dessas mulheres! Na minha época, não tinha nada disso!

Eu tentei disfarçar, puxando outros assuntos, tentando ganhar tempo, enquanto a fila andava. Ele estava inquieto. Já tinha me feito uma série de perguntas, uma metralhadora de “por quê?”, porém aquela foi a pior do dia.

Faltava apenas uma pessoa a ser atendida na frente da dona da lingerie contestada. Eu enrolava o moleque, ou pelo menos tentava, de todos os modos, fazendo promessas de passeios, de brinquedos, dando um jeito de me livrar de um novo por quê.

– Próximo! – gritou o rapaz do caixa. E, sem olhar para trás, ela foi. Logo em seguida, a menina do caixa ao lado fez a mesma menção.

– Caixa 3 livre! – e lá fomos nós; para o meu azar, ficamos lado a lado com a moça. De repente, Abelardinho cutuca a perna da mulher e manda a derradeira:

– Oi, tia Patrícia! Por que a senhora usa calcinha tão pequena, diferente das que a mamãe usa?

Era a professora de inglês dele. Ela pegou a sacola de compras, deu um senhor tabefe na minha cara, abaixou-se e disse, olhando para o meu filho:

– Uso porque elas cabem em mim, mas não na bunda gorda da sua mãe! – e foi embora.

– Papai, por que a mamãe tem a bunda gorda?