O professor

Em Foco, Paulo Sérgio Valle, Tour fevereiro, 2017

Há poucos dias, encontrei um velho amigo, professor aposentado da rede estadual. Denotando fadiga e preocupação em seu semblante, puxou uma conversa comigo:
“Sabe do que estou vivendo? De salários atrasados, pagos parceladamente, e das minhas parcas reservas, que já estão a minguar. Nunca pensei que, aos oitenta anos de idade e depois de tantos anos de trabalho, fosse passar por isso. Minha mulher, que também é professora aposentada, está na mesma situação. Já começamos a economizar até na comida”.
Cheguei a pensar que iria me pedir dinheiro emprestado, mas, ele, homem altivo e orgulhoso, só em caso extremo faria isso. Posso dizer tal porque conheço bem o meu velho amigo.
O que ele queria era desabafar, externar a revolta por sua humilhante situação.
E continuou: “incompetência e roubalheira. Assim é o Brasil de hoje. Como professor retirado, fico pensando na dificuldade do educador atual, e dos pais, para ensinar os jovens”.
Dizer o quê? Que todo político é ladrão? Não se pode afirmar tal coisa; primeiro, porque há exceções; segundo, porque toda generalização é perigosa. Mas que a maioria o é, disto não tenho dúvida.
Meu amigo enxugou o suor do rosto e prosseguiu:”é coisa básica na Educação ensinar o respeito às instituições e principalmente à Justiça. Mas, o que dizer quando se vê o presidente do Senado fugir de uma citação do Supremo Tribunal Federal e se esconder do oficial de Justiça? E o pior é que tudo ficou por isso mesmo. Vendo tais coisas, como reagirá o jovem no futuro? Será que seremos um país de Cunhas, Renans, Cabrais? Será que continuaremos a ver empresários inescrupulosos em conluio com políticos desonestos a saquear o país?”.
Despedi-me do meu amigo, pensando: que país injusto.